Por: Elias Muratori
Vivemos um tempo em que não se constitui exagero iniciar esse artigo dando ao mesmo esse título. Afinal, por vezes, percebemos pessoas e turbas de fiéis, ávidos por alcance de “graças e sinais miraculosos”, e, por isso, muitas vezes exercem suas crenças de forma a retroagir à Idade Média. Suas práticas - mesmo que não se deem conta - chegam a “ressuscitar” formas de orações, dos remotos tempos dos primeiros cristãos. Como é o caso do “falar em línguas”.
E, prudente é dizer, já neste
início que não trato aqui, de nenhuma crítica, ou apontamento de dedo a esse,
ou, aquele indivíduo, esse ou aquele seguimento, mas se trata de uma análise
generalizada e que pode ser tomada como mera reflexão.
Isso posto, creio poder dizer
o que penso: muitos que se atrevem a esta forma de “oração” (falar em línguas),
só fazem por achar bonito, ou, por busca de destaque e/ou status, numa eventual
roda, reunião, em um púlpito defronte de uma assembleia.
Os/as que assim se portam, se forem
questionados nada saberão dizer sobre o que “falaram”, ou, o que significam os
emaranhados de palavras estranhas que balbuciaram. E não saberão responder pois
só as emitem porque, com isso, poderão ser vistos como os mais sábios, mais
especiais e os escolhidos “do alto”.
Enquanto isso os “embromados
fiéis” não se dão conta que os exibidores, muito exercitaram para decorar palavras
sem sentido e frases como meros quebra-línguas... por isso, enchem o peito e
desembestam a falar estranhamente, se arvorando em dizer que são os
“autorizados e que comunicam em nome do Espírito Santo”.
Consideremos que, prática do
“falar em línguas” era observada pelos primeiros cristãos, contudo, essa, foi
perdendo a razão de ser, já a partir dos muitos convertidos, quando o “falar em
línguas” deu lugar à pregação e à vivência dos discípulos que, a partir da
diáspora (e com ela), surge a necessidade de se explicar pormenorizadamente e
em linguagem popular a “Boa Nova”, sobretudo, entre os pagãos.
O “falar em línguas” tem muito
a mais a ver com um louvor individual/pessoal do que prática junto a uma
assembleia.
Em nossos tempos e, muito no
seguimento da Renovação Carismática, o 'falar em línguas' tem sido utilizado de
maneira distinta daquela observada nos primeiros tempos, com os cristãos.
Enquanto nos tempos bíblicos,
essa prática era vista como um dom do Espírito Santo, para edificação pessoal e
da comunidade, hoje, ela é frequentemente associada a demonstrações públicas mirabolantes,
com intuito de entreter e, eventualmente convencer pela aparência, em detrimento
da fé. Essa mudança de enfoque levanta questões sobre a autenticidade e o
propósito dessa prática, bem como nos leva a perguntar, sobre seus verdadeiros
objetivos.
Ao longo de séculos seguintes
aos primeiros cristãos, o que mais se passou a destacar, não era o “falar em
línguas”, mas, os verdadeiros sinais da presença do Espírito (Paráclito),
sinais esses que se tornaram muito maiores, pois, a partir da prática da Boa
Nova do Senhor, a vida dos que passaram a crer se tornaram visivelmente
transformadas. Muito mais pelas ATITUDES e SENTIMENTOS, alcançados a partir da
palavra ampla e claramente explicada a cada um. Justamente o contrário do uso
“das línguas”, que ninguém era capaz de entender e, muito menos explicar. Pois,
mesmo quem as falava muitas vezes não as entendiam.
Para São Tomás de
Aquino, "falar em línguas" pode ser compreendido de duas formas:
falar em línguas conhecidas, mas desconhecidas para um determinado grupo (como
em Pentecostes, onde pessoas de diferentes línguas compreendiam os apóstolos),
ou, falar sobre visões ou símbolos sem uma explicação”.
Ele também destaca que a
linguagem é essencial para a comunicação e para a compreensão da realidade.
“Quanto ao dom de línguas,
devemos saber que, como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para
pregar ao mundo a Fé em Cristo, a fim de que mais facilmente e a
muitos se anunciasse a palavra de Deus, o Senhor lhes deu o dom de línguas”, (Santo Tomas
de Aquino, Comentário a la primera espistola a los Conrintios, Tomo II, pag
178.)
“Santo Tomás de Aquino dizia,
ainda, que Jesus não usava do artifício das línguas porque a missão dele era
para os judeus” Então, para Thomás de Aquino esse dom seria simplesmente
desnecessário de ser manifestado.
Contudo, na história do
cristianismo contemporâneo uma grande mudança a respeito do entendimento da
prática do dom de línguas ocorreu, principalmente, a partir do início do século
vinte com o surgimento do “movimento pentecostal”. Sendo um elemento muito
importante para os cristãos pentecostais, especialmente.
“Línguas, no primeiro sentido
é um dom profético, cuja compreensão requer a presença de um intérprete (1 Cor 14,26-28).
O intérprete não traduz a mensagem, mas, sim, é movido para transmitir seu
significado geral. Paulo vê uma variedade de funções a serem observadas por
este dom, incluindo o louvor a Deus e a revelação para a congregação.
No segundo sentido, Paulo diz
que o dom de línguas é direcionado para Deus, não para o próximo, pois é um dom
de oração e não de pregação (1 Cor 14,2). É um dom de louvor carismático
inspirado e, talvez para a comunicação de anseios internos que a pessoa não
consegue colocar em palavras (ver Rom 08,26-27).
Assim, nos é dito em 1 Cor
14,14-17, que este é um dom de oração, de louvor e de ação de Graças. Sua
função principal não é, portanto, uma inteligível comunicação”.
Portanto, o valor deste tipo
de oração de louvor reside precisamente no seu caráter não-racional, que
permite que o Espírito Santo se desvie da mente e mova o espírito humano a
rezar em profundidade (Rm 08,26-27)”.
Pesquisando: glossolalia e
xenoglossia são fenômenos que envolvem falar em línguas, mas com
diferenças significativas.
Na Teologia
Cristã, Glossolália geralmente se refere aos sons da fala, dados pelo
Espírito Santo, para uso na oração privada ou pública. O termo Xenoglossia vem
das palavras gregas xenos, “estrangeiro” e hellēnikē, “língua” e significa
“falar uma língua estrangeira”.
“No seguimento Renovação
Carismática hoje, o segundo tipo de línguas é muito mais comum, embora, também,
tenha havido muitos casos relatados do primeiro tipo.
Oportuno notar-se que a
glossolalia e xenoglossia não são uma garantia de que alguém falando em línguas
esteja sendo movido pelo Espírito Santo, uma vez que Satanás tenta falsificar
todos os dons do Espírito”.
Paulo, portanto, adverte os coríntios
para que façam o discernimento de cada dom espiritual com base em critérios de
verdade (1 Cor 12,1-3) e amor (1 Cor 13,1-3), e, ainda, lhes lembra que os dons
têm valor apenas na medida em que são exercidos na ordem certa, para a
edificação do corpo de Cristo (1 Cor 14,39-40).
Por fim, se torna necessário
cessar essas observações (não dando-as por encerradas), citando parte maior da
primeira carta aos Coríntios (Cor,14):
2 Pois
quem fala em língua não fala aos homens, mas a Deus. De fato, ninguém o
entende; em espírito fala mistérios.
3 Mas
quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens.
4 Quem
fala em língua a si mesmo se edifica, mas quem profetiza edifica a igreja.
5 Gostaria
que todos vocês falassem em línguas, mas prefiro que profetizem. Quem profetiza
é maior do que aquele que fala em línguas, a não ser que as interprete, para
que a igreja seja edificada.
6 Agora,
irmãos, se eu for visitá-los e falar em línguas, em que lhes serei útil, a não
ser que lhes leve alguma revelação, ou conhecimento, ou profecia, ou doutrina?
18 Dou
graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vocês.
19 Todavia,
na igreja prefiro falar cinco palavras compreensíveis para instruir os outros a
falar dez mil palavras em língua.
20 Irmãos,
deixem de pensar como crianças. Com respeito ao mal, sejam crianças; mas,
quanto ao modo de pensar, sejam adultos.
21 Pois
está escrito na Lei: "Por meio de homens de outras línguas e por meio de
lábios de estrangeiros falarei a este povo, mas, mesmo assim, eles não me
ouvirão", diz o Senhor.
22 Portanto,
as línguas são um sinal para os descrentes, e não para os que crêem; a
profecia, porém, é para os que crêem, e não para os descrentes.
23 Assim,
se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não
instruídos ou descrentes não dirão que vocês estão loucos?
24 Mas se
entrar algum descrente ou não instruído quando todos estiverem profetizando,
ele por todos será convencido de que é pecador e por todos será julgado,
25 e os
segredos do seu coração serão expostos. Assim, ele se prostrará, rosto em
terra, e adorará a Deus, exclamando: "Deus realmente está entre vocês!
"
26 Portanto,
que diremos, irmãos? Quando vocês se reúnem, cada um de vocês tem um salmo, ou
uma palavra de instrução, uma revelação, uma palavra em língua ou uma
interpretação. Tudo seja feito para a edificação da igreja.
27 Se,
porém, alguém falar em língua, devem falar dois, no máximo três, e alguém deve
interpretar.
28 Se não
houver intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus.

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